A DEMOGRAFIA HISTÓRICA BRASILEIRA E SEUS PRÓXIMOS PASSOS: TEMA PARA UM DEBATE INADIÁVEL.


Iraci del Nero da Costa
São Paulo, março de 2006



Alguns dos trabalhos recentes desenvolvidos no Brasil no âmbito da pós-graduação estão bordejando um novo tipo de enfoque de nossa história demográfica, tal enfoque, a meu ver, levará nossos estudos a um patamar superior ao prevalecente nos dias correntes. (1)

A fim de aclarar esta minha impressão permito-me uma breve digressão sobre o caráter dos estudos históricos efetuados entre nós e, em particular, sobre as características já assumidas ou que poderão vir a ser galgadas pelos estudos concernentes à área da demografia histórica brasileira.

Em termos grosseiros, podemos estabelecer pelo menos três categorias de estudos quando pensamos em nossa demografia histórica.

Num primeiro plano, mais intimamente vinculado ao factual e muito próximo do empírico, enquadra-se a maioria dos trabalhos até hoje desenvolvidos em nossa área. Parte-se de um conjunto de fontes documentais e, com base na orientação metodológica assumida, tenta-se extrair dele o máximo de informações de caráter geral. Alternativamente, tais fontes documentais são exploradas de sorte a se realçar um ou mais aspectos demo-econômicos da vida social; neste nicho albergam-se os inúmeros artigos, teses e ensaios votados à consideração da família, dos agregados, da estrutura de posse de escravos, das distintas formas de acumulação de riqueza e composição de patrimônios etc. etc. Nesta esfera também colocar-se-iam trabalhos cujos autores se ocupassem de casos "excepcionais" como seria o estudo demográfico do episódio de Canudos ou de Palmares, para citar apenas dois casos exemplares.

Um degrau superior a esse primeiro marcar-se-á pela busca e caracterização de padrões – de regularidades – e pela procura de causas comuns a eventuais "excepcionalidades". Para esta órbita apontam os estudos recentes referidos na abertura destas notas. Havia um padrão concernente à formação de nossas vilas e municípios? Como se dava a ocupação de novas áreas em termos da afluência de proprietários de cativos? E quando ocorria retração da atividade econômica, como se dava a sustentação da vida comunal? Neste último caso, ocorria a presença de uma família e/ou personalidade dominante nela enraizada e que emprestava seu respaldo à sua continuidade, ainda que amesquinhada do ponto de vista econômico? Considerada determinada atividade econômica, evidenciava-se um número mínimo de escravos e/ou trabalhadores para nela ingressar? Enfim, respostas a questões como estas insinuam-se em teses e dissertações defendidas nos últimos tempos.

Por fim, uma terceira categoria englobará trabalhos dirigidos ao estabelecimento de uma visão explicativa global capaz de conjugar num todo orgânico coerente a formação de nossas populações, de nossa sociedade e de nossa(s) economia(s). No respeitante à nossa evolução social e econômica já contamos com avultado número de visões – neste capítulo podemos arrolar, entre outros, os nomes de M. Bonfim, G. Freire, R. C. Simonsen, Caio Prado Jr., C. Furtado, R. Faoro, S. B. de Holanda, J. Gorender, C. F. S. Cardoso, J. Fragoso e, muito modestamente, J. M. Pires e I. Costa. Já o mesmo não se pode dizer quanto à constituição de nossas populações. Como sabido, a demografia histórica ainda não se desenvolveu o bastante entre nós para chegarmos a divisar uma explicação global e original para nossa formação populacional, assim como nos falta determinar com clareza os distintos regimes demográficos que vigeram entre nós. Conquanto os vários sistemas demográficos aventados pioneiramente por Maria Luiza Marcílio (2) evidenciem a necessidade de tratarmos de tal tema, careceram, os propostos por essa mestra, de apoio empírico sólido e incontestável. De toda sorte, teremos de enfrentar tais questões a fim de chegarmos à formulação de esquemas explicativos capazes de dar conta das relações entre os vários elementos que informaram e enformaram nossa evolução demo-econômica e social.

Quando expus a assim chamada segunda categoria de estudos, referi-me tanto à passagem do tempo (desenvolvimento das localidades) como às vicissitudes defrontadas pelos escravistas. Trata-se de duas questões inter-relacionadas, mas que podem ser abordadas segundo esses dois flancos. Assim, quando se pensa no evolver das localidades não se deve considerar, tão-somente, as variações observadas na riqueza, mas, além disso, no modo (no eventual padrão) que, considerada cada "economia" do Brasil ao tempo da colônia e do império, deu forma ao desenvolvimento (e à eventual involução) das ditas comunidades. O plural é aqui empregado de maneira proposital, pois certamente teremos de analisar várias delas para chegarmos a um conjunto de elementos capaz de delinear o padrão procurado. Ao estudarmos várias localidades provavelmente poderemos isolar os aspectos peculiares – aleatórios – e determinar quais seriam os "essenciais". Assim, por exemplo, ao contemplarmos localidades que se viram dominadas pelo café, far-se-ia necessário distinguirmos, desde logo, dois grupos: um correspondente às áreas já assentadas e consolidadas e que foram engolfadas pela onda do café; outro concernente aos núcleos pioneiros. No primeiro caso poderíamos aferir como se deu o impacto da introdução da rubiácea sobre as propriedades preexistentes, sobre os proprietários, a escravaria, o comércio e sobre os preços relativos; ser-nos-ia dado verificar o perfil dos adventícios e suas características, o engajamento dos autóctones, os deslocamentos dos antigos proprietários de terras no local, o comportamento da assim chamada arraia-miúda etc. etc. Lembro aqui um caso exemplar, trata-se de uma trabalho sobre uma localidade paulista na qual se verificou que uma parte dos antigos proprietários (aqueles sem condições e/ou vontade de plantar café) viu-se efetivamente deslocada das terras melhor situadas no vale central da região; não obstante, tais pessoas não se transformaram em "excluídos", pois acomodaram-se num vale adjacente, bem menor e mais estreito do que o principal, onde estabeleceram cultivos de subsistência. Considerado o fato ora reportado, algumas das perguntas que se põem são as seguintes: em que medida tal comportamento foi generalizado? quais as características dos que ficaram na área central, dos que passaram a produzir café e dos que se deslocaram para uma área lindeira? no correr do tempo, qual o novo "equilíbrio" observado na região?

Se nos centrarmos no elemento adventício seria altamente recomendável compararmos suas características (idade, estado conjugal, número de escravos etc.) em face de duas situações distintas: 1) os que se estabeleceram como pioneiros em uma área totalmente nova e 2) os que se integraram a núcleos preexistentes. Quais as diferenças e semelhanças entre tais pessoas e seus haveres?

No caso de núcleos pioneiros também será interessante verificar qual o caminho seguido até atingirem certa estabilidade, quais os "momentos" deste evolver: chegada dos pioneiros, eventual vinda de familiares (nos núcleos que já existiam talvez os familiares acompanhassem os adventícios), estabelecimento de comércio, das vias de comunicação, do comércio de escravos, como se deu a estruturação da vida religiosa e das instituições "civis", como ocorreu a ocupação das terras em face das condições geográficas em geral e pedológicas em particular etc. etc.

Quanto ao estabelecimento da vida religiosa parece ser muito relevante a figura do doador do patrimônio da Igreja; ao que consta, geralmente havia uma família mais abastada apta e interessada em assumir tal responsabilidade (há o caso anedótico de um potentado local que, por sentir-se desautorizado pelo pároco, colocou um cadeado na Igreja e a fechou dizendo ser a Igreja dele, pois fora ele quem doara as terras para sua construção). Ademais, por via de regra, esta família passava a dominar a vida política do núcleo e se enraizava tão fortemente no local que, mesmo quando a localidade conhecia a decadência, ali permanecia aquele "clã", oferecendo, de certa forma, as condições para a continuidade do núcleo, mesmo se presa de cabal decadência. Repetiu-se tal esquema, se é que existiu? Qual seu impacto sobre a "psicologia" social? Enfim, aí pode estar um elemento não só do "coronelismo", mas da existência de um grande número de cidades (sobretudo em áreas economicamente deprimidas do Nordeste e de Minas Gerais) que hoje vivem das cestas básicas, das aposentadorias e do dinheiro enviado do exterior por emigrantes.

Conforme se observa, com base em umas poucas variáveis demográficas somos levados a uma série de problemas correlatos situados no campo vasto da história em geral. De outra parte, é preciso reconhecer o teor puramente especulativo de muitas das hipóteses tecidas acima; assim, tanto nossos coronéis como o grande latifúndio podem vir a definir-se como decorrência do período de decadência econômica, ou seja: dado o vazio econômico criado pela recessão é possível que um pequeno número de famílias começasse a açambarcar as terras, a vida econômica e política local. Também é possível que esses dois modelos tenham ocorrido, ou que um se tenha sobreposto ao outro. Enfim, do ponto de vista demográfico, sabemos pouco sobre tais processos. Para enfrentá-los teríamos – além de considerar nossos dados estatísticos e outras evidências qualitativas – de voltar aos clássicos como Victor Nunes Leal e Maria Isaura Pereira de Queiroz, só para citar dois nomes dos mais respeitáveis.

Como se vê, há um mundo de "coisas" a descobrir. Aqui só apontei algumas questões, nós poderíamos multiplicá-las. Nem sequer toquei nos problemas afetos ao ciclo de vida e à posse de escravos, uma outra vertente a ser explorada quando se toma como objeto o evolver dos núcleos populacionais de nosso passado escravista.

Este segundo patamar pode ser entendido como um desenvolvimento dos estudos até agora realizados. O novo está no fato de que os pesquisadores não mais ficarão presos imediatamente às evidências empíricas, mas procurarão encontrar o "caminho" que elas seguiram no correr do tempo de sorte a verificar se existem "caminhos" semelhantes e, neste caso, quais são, por um lado, as raízes e causas de tais semelhanças e, por outro, quais razões explicariam as eventuais divergências.

Há, pois, dois caminhos para alcançarmos este novo estágio de nossos estudos: de uma parte, poder-se-á partir de trabalhos já existentes; de outra, trabalhos desenhados desde sua formulação inicial em novas fontes e recortes possibilitarão abordagens imediatamente inovadoras.

A esta altura faz-se mister alertar que as eventuais confrontações de resultados a serem efetuadas com base em estudos já existentes não podem cingir-se a comparações perfunctórias. (3) Destas últimas podem resultar categorizações fortuitas, devidas, tão-só, a coincidências numéricas. (4) É necessário ir além da mera comparação, pois é preciso identificar elementos causais aptos a sustentarem categorizações com respaldo na realidade; impõe-se, ademais, o claro delineamento dos aludidos padrões e, quando necessário, o estudo de seu evolver histórico de sorte a documentar as mudanças por que passaram no correr do tempo e em face das alterações de ordem econômica e/ou política vivenciadas por nossa sociedade.

Seguindo nesta linha de raciocínio tomemos como exemplo um projeto simples (ora em desenvolvimento), mas que já aponta para o patamar ora em foco. Contemplemos, pois, a apresentação desse artigo no qual se pretende analisar, de uma perspectiva comparativa, as atividades produtivas e a propriedade escrava no Brasil. Reza sua introdução:


"Como parece óbvio, não é de estranhar que diferentes atividades produtivas requeiram – em decorrência de suas especificidades, do grau de especialização regional em tal ou qual produto, da escala de produção e de um eventual tamanho mínimo exigido para a planta produtiva de sorte que ela se mostre economicamente viável – quantidades diferenciadas de trabalhadores.
Assim, em princípio, no Brasil escravista, um produtor de açúcar destinado à exportação deveria ter um maior número de cativos do que um agricultor votado ao plantio de gêneros de subsistência destinados a modestos mercados locais; já um artesão mobilizaria um número menor de escravos do que um agricultor de porte mediano.
De outra banda, também é de esperar que, fixada a atividade produtiva, ocorresse, entre os escravistas que a ela se dedicavam, apreciável discrepância quanto ao número de cativos possuídos. A escala da produção e/ou dos negócios tocados, a idade e o sexo do escravista, o período de tempo transcorrido desde seu engajamento nessa específica atividade econômica, bem como as vicissitudes da vida – partilhas, heranças, dotes, doenças etc. –, todos estes elementos certamente compõem o rol explicativo da aventada divergência nas quantidades de escravos possuídos.
Pois bem, neste estudo consideraremos com base em evidências empíricas – e de maneira genérica, diga-se desde logo – as duas questões postas acima, quais sejam: a) a discrepância existente quanto ao tamanho dos plantéis quando contemplados distintos grupos de atividades produtivas ou econômicas e b) o grau de homogeneidade/heterogeneidade vigente no âmbito de cada um dos grupos de atividades analisados, sempre tendo como referência o número de escravos possuídos pelos proprietários enquadrados em cada um dos aludidos grupos de atividades econômicas. Para o primeiro caso (a) tomaremos como elemento de discriminação, tão-somente, o número médio de escravos possuídos pelos escravistas alocados em cada um dos distintos grupos de atividades. Já para o outro caso (b) servir-nos-emos, para cada grupo de atividades, de três indicadores intimamente relacionados: do desvio padrão em torno do número médio de escravos possuídos, da distribuição porcentual das escravarias possuídas segundo cinco faixas de tamanho de plantéis: 1 a 5 cativos, 6 a 12, 13 a 20, 21 a 30 e 31 e mais escravos e, por fim, do índice de Gini.
Ademais, procurando evitar que nosso exercício se veja viciado pela estreiteza de observações, efetuaremos os mesmos cômputos para um conjunto razoável de dados, temporalmente distanciados, e concernentes a localidades situadas em distintos pontos de nosso território. Assim operando procuraremos identificar eventuais regularidades na distribuição da posse escrava, segundo atividades econômicas, bem como estabelecer eventuais padrões de propriedade escrava concernentes ás referidas atividades."

Como se conclui imediatamente, este projeto, como avançado, é bem simples, embora envolva um trabalho amplo de reunião de dados. Ademais, ele poderá ser desenvolvido com dados já existentes e, eventualmente, complementado com novas coletas.

Uma particularidade altamente relevante, só indicada tangencialmente no projeto, diz respeito ao passar do tempo; assim, caso fossem tomados uns poucos núcleos, talvez fosse o caso de se acompanhar o desenvolvimento da escravaria em cada localidade de sorte a captar as causas de eventuais mudanças com relação às quais se impõem duas linhas de perquirição: de uma parte o próprio desenvolvimento da localidade, de outra, as vicissitudes defrontadas pelo grupo de escravistas.

Aqui ficam, pois, uns poucos exemplos para ilustrar o que penso do que tenho chamado de segundo patamar dos estudos demográficos entre nós.

Quanto ao terceiro e mais complexo degrau acima aventado creio não haver muito a acrescentar às palavras de artigo escrito por mim e por José Flávio Motta há alguns anos; sirvo-me delas, portanto, como fecho destas notas.

"Por outro lado, igualmente relevante parece-nos ser a retomada do estudo – agora lastreado em base empírica mais rica e, eventualmente, com visão teórica mais abrangente – dos regimes demográficos que vigoraram no passado brasileiro. Pensamos aqui, especificamente, no esforço de elaboração a ser desenvolvido no sentido de integrarmos num corpo orgânico teoricamente estruturado os avanços empíricos já alcançados quanto à formação de nossas populações. Identificar os aludidos regimes, as especificidades próprias de cada grande segmento populacional (livres, escravos e forros), as peculiaridades regionais e os condicionantes devidos às várias “economias” que se definiram no correr de nossa história é tarefa urgente na busca de generalizações que possam transcender o largo apego ao empírico que, necessariamente, distinguiu grande parte do desenvolvimento da demografia histórica entre nós. Ainda no âmbito desta preocupação com o estabelecimento de visões de mais largo alcance, parece-nos muito importante a identificação dos pontos de inflexão que, certamente, marcaram nossa formação populacional." (5)


NOTAS

(1) As considerações apresentadas neste breve artigo não desconsideram as sempre relevantes e atuais recomendações explicitadas em COSTA, 1994 e em MOTTA & COSTA, 1997.

(2) MARCÍLIO, 1980/1984.

(3) Exemplo desse tipo de comparação singela encontrar-se-á em artigo do qual sou co-autor: MOTTA, NOZOE & COSTA, 2004.

(4) Como já alertado: "panos de fundo socioeconômicos distintos podem dar suporte a populações cujas estruturas demográficas apresentam perfis estatísticos em boa medida semelhantes." MOTTA, NOZOE & COSTA, 2004, p. 209.

(5) MOTTA & COSTA, 1997, p. 156.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COSTA, Iraci del Nero da. Demografia Histórica no Brasil: contribuição para o estabelecimento de um dossiê sobre avanços e desafios. BHD – Boletim de História Demográfica. São Paulo, NEHD da FEA-USP, ano I, n. 3, 1994. Disponível em  HYPERLINK "http://www.brnuede.com" http://www.brnuede.com .

MARCÍLIO, Maria Luiza. Sistemas demográficos no Brasil do século XIX. Revista de Cultura Vozes. Petrópolis, Vozes, 74(1):39-48, jan./fev. 1980. Também publicado: MARCÍLIO, Maria Luiza (org.). População e sociedade: evolução das sociedades pré-industriais. Petrópolis, Vozes, p. 193-207, 1984.

MOTTA, José Flávio & COSTA, Iraci del Nero da. Demografia histórica: da semeadura à colheita. Revista Brasileira de Estudos de População. São Paulo, ABEP, 14(1/2):151-158, jan./dez. 1997.
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MOTTA, José Flávio & NOZOE, Nelson & COSTA, Iraci del Nero da. Às vésperas da abolição: um estudo sobre a estrutura da posse de escravos em São Cristóvão (RJ), 1870. Revista Estudos Econômicos. São Paulo, IPE-USP, 34(1):157-213, jan./mar. 2004.
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A HISTÓRIA COMO TENTATIVA DE SE DESVENDAR O ENCADEAMENTO LÓGICO DOS FATOS DO PASSADO
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Iraci del Nero da Costa


Minha opinião sobre um tema clássico.

A história, enquanto atividade de recuperação, recriação ou, mais propriamente, apropriação ou "criação" do passado, pode ser entendida como uma tentativa de se desvelar o encadeamento lógico dos fatos do passado. Da mesma sorte, pode ser ela vista como um movimento do pensamento mediante o qual rearranjamos -- de modo inteligível e racional -- os fatos, coisas, ações e pensamentos que, irrecorrivelmente, perderam-se no tempo ido.

Não que o passado seja, enquanto um algo, ininteligível ou irracional; o problema está em que -- da mesma maneira que nossa "interpretação" do fato, em sua gênese e enquanto ainda está a se dar, pode alterar o curso de seu desenvolvimento -- o fato de estarmos pondo o passado como objeto de nossa observação propicia -- já desvanecidos os elementos materiais e, em larga medida, muito dos elementos subjetivos que lhe deram sustentação e o condicionaram -- oportunidade para a emergência de uma interpretação, de uma "inteligibilidade" e de uma "racionalidade" que dormitam, como meras potencialidades, tanto no fato quanto em nós mesmos.
Por outro lado, é preciso ter presente que o peso a ser assumido por um fato, (por qualquer fato ocorrido em qualquer momento) -- cuja gênese pode ter sido aleatória e/ou acessória -- depende, crucialmente, do desenvolvimento futuro que projetamos para ele. Ao interpretá-lo, racionalizá-lo e torná-lo inteligível -- no momento mesmo em que surge -- emprestamos-lhe uma dimensão nova (do campo do material -- "natural" -- transportamo-lo ao campo do real -- cultural) (1), comprometemos seu "futuro" e fazemo-lo assumir o "peso" (relevância, importância) acima aludido.

Como gostariam os físicos, pode-se dizer que o princípio da incerteza de Heisenberg está na base mesma da vida cultural -- da existência humana enquanto tal. Assim, a observação (a colocação do "fato" como objeto do pensamento) transforma-o em algo real e, portanto, supramaterial; seu desenrolamento futuro, condiciona-se, destarte, a uma ordem legal que não tem de estar presente, necessariamente, em seu nascedouro. Ademais, mesmo se o estivesse, o plano do real apresenta dinâmica tal que, a cada momento, e sempre, tudo é passível de reordenamento, de redefinição.

Não estou dizendo que é impossível conhecer ou "recompor" o passado, o que estou afirmando é que é impossível conhecer o que quer que seja se se concebe o conhecimento da maneira errônea e ingênua como o fazem os positivistas. Assim, a questão não está em se saber se o passado, ou o presente, são inatingíveis, mas, sim, saber-se "o que é atingido". Destarte, e falando figuradamente, se, com respeito à denunciada postura ingênua, o que se alcança no presente é um exponencial do pretenso "fato em si", na história estamos em face de um exponencial de um exponencial.

Duas questões paralelas.

As questões acima postas dizem respeito, especificamente, à maneira de ser da cultura, à existência do humano, ao que chamo de "plano ou campo do real" (2). A elas somam-se duas outras, às quais também se deve dar atenção, pois também operam no sentido de qualificar a ciência da história, minando ainda mais seu hipostático hábitat. Penso agora nos problemas afetos à ideologia e ao hiato que separa o que o sujeito pensa de suas ações ou de suas intenções e os móveis efetivos que as determinam (não esqueço aqui que o pensado pelo agente influencia decisivamente suas ações e intenções e seus respectivos desdobramentos). Ambos temas têm recebido largo tratamento por parte de estudiosos e, embora nunca se possa considerar um tópico como estes exaurido, não pretendo aqui tecer comentários adicionais aos que já constam de uma longa bibliografia; restrinjo-me, tão-só, a uma observação que visa a conturbar ainda mais este movediço terreno, vejamo-la.

Sem fugir das recorrentes recomendações a que explicitemos posições no que tange ao campo das ideologias e sem descurar da pesquisa referente ao levantamento dos possíveis móveis das ações e intenções dos protagonistas pessoais e coletivos de nosso passado, não se deve perder de vista a impossibilidade de se chegar -- no âmbito da Ciência Social -- a um "produto final pronto e acabado". Como bem sabemos, o final de uma pesquisa é, de fato, um reinício, nossos achados dão ensejo a um diálogo com cada um de nossos leitores, o resultado dessa interação -- como nas artes em geral --, este sim, pode ser tomado como produto de nossos estudos. Serão eles, pois, reciclados, re-postos por estes nossos interlocutores que também os avaliarão sob a ótica das ideologias e das perspectivas analíticas porventura neles propostas de modo implícito ou explícito. As recomendações aludidas no início deste parágrafo não podem ser tomadas, assim, como fórmulas destinadas a "garantir" aquele "produto final", mas, sim, como normas cuja finalidade é proporcionar a abertura de um processo interativo isento de vícios maiores. Isto implica dizer que o processo de crítica das bases ideológicas e dos móveis últimos dos agentes tem continuidade depois de a obra haver sido dada a público; mais ainda, tal processo vê-se alargado, pois agora o próprio autor vê-se submetido àquele crivo, vale dizer, também a visão de mundo e os móveis do historiador passam a incorporar o todo a ser avaliado criticamente.

Uma conseqüência a considerar.

Outra conseqüência da visão acima reportada está em que, em história, sempre nos deparamos com resultados, "fósseis" dados ex post. Ocorre que o "humano" que os embasa não está nesses "fósseis", mas no processo que os constituiu e do qual eles resultaram. Assim, captar humanamente o passado pressupõe um largo exercício de imaginação mediante o qual injetamos vida em tais "fósseis". É preciso, pois, vê-los de uma perspectiva processual. Ao operarmos dessa forma devemos deixar de lado a vã tentativa de recompor o passado "como ele realmente foi"; devemos fazê-lo visando a apreendê-lo -- não como uma coisa -- mas como testemunho de seres que viveram humanamente, apaixonadamente. Percorrer este campo minado é, certamente, o grande desafio que se coloca ao historiador.



NOTAS

(1) Sobre esta e outras questões concernentes à visão de mundo que esposo veja-se: COSTA, Iraci. Notas não orgânicas sobre formas de existência. São Paulo, FEA-USP/NEHD, 1998, 7 p., mimeografado.
(2) Cf. COSTA, 1998, op. cit., passim.

NOTAS SOBRE PROCEDIMENTOS DE PESQUISA: SOBRE A INTRODUÇÃO DE NOVOS CULTIVOS


Iraci del Nero da Costa


A meu ver, o estabelecimento de uma nova cultura apresenta, tanto do ponto de vista econômico como do demográfico, momentos bem distintos: implantação, difusão e consolidação.

IMPLANTAÇÃO

A implantação corresponde à introdução de um novo cultivo, o que se dá, por via de regra, com base na ação de produtores marginais, vale dizer, pequenos produtores sem maiores recursos, tanto em termos de posse e/ou propriedade de terras como no respeitante a fatores materiais (bens de produção e capital) ou humanos (escravos ou concurso de trabalhadores livres).

A incorporação de novas culturas ocorre, ademais, sem qualquer mudança mais expressiva no quadro demo-econômico pré-existente. Muito comumente os pioneiros eram pequenos lavradores que não dispunham de terras próprias nem eram proprietários de escravos; não raro, tratava-se de agregados. Ao que parece, cabia-lhes -- sem que disso tivessem consciência -- o papel de testar as potencialidades do novo bem sem que os demais produtores da área se vissem obrigados a enfrentar riscos ou efetuar gastos.

DIFUSÃO

Provada a viabilidade econômica da cultura introduzida conhecia-se o desenvolvimento de uma nova fase, a da difusão do novo plantio com o alargamento das atividades -- inclusive as de caráter artesanal e/ou comercial -- a ele vinculadas imediatamente.

Dá-se nesse momento não só a incorporação à nova atividade de produtores já estabelecidos na região como a entrada de outros mais, atraídos pelo êxito alcançado pelo novo cultivo. Se os que já se encontravam na área não vêem, de início, grandes alterações em suas posses, nem enfrentam, de imediato, mudanças radicais em sua rotina de trabalho, pois a nova atividade, via de regra, consorcia-se com as atividades desenvolvidas anteriormente, a entrada de novos produtores pode significar grandes transformações, tanto em termos pessoais -- afeta-se aqui a vivência dos recém- chegados, de suas famílias e eventuais acompanhantes (inclusive escravos) -- como no que tange à estrutura e características demográficas e econômicas da área receptora. Têm início nessa segunda fase, pois, processos mais ou menos acentuados de atração, acomodação e repulsão, tanto de pessoas como de atividades. Alterações profundas no perfil demo-econômico podem verificar-se.

O importante a ressaltar aqui é que tais mudanças não podem ser vistas como uma conseqüência da atuação da nova atividade sobre estruturas pré-existentes que se teriam mantido isoladas, ou seja, fechadas às influências externas. Não, embora as alterações devam ser atribuídas à nova atividade, não podem ser referidas à sua ação sobre o perfil demo-econômico pré-existente, pois tais mudanças -- ainda que profundas e dramáticas -- devem ser atribuídas a fatores exógenos, elementos novos introduzidos de fora para dentro com respeito às condições imperantes anteriormente na área. Como veremos adiante, as transformações decorrentes de fatores endógenos -- e, portanto, atribuíveis à atuação da nova atividade -- dão-se no que se poderia considerar longo prazo, vale dizer, na terceira fase aqui contemplada, qual seja, a da consolidação de uma nova atividade.

CONSOLIDAÇÃO

Esta terceira fase é a mais duradoura das três, pois, contrariamente à primeira, que ocupa umas poucas safras, e à segunda, que não se alonga por muito mais de um lustro, esta última se estende até a decadência e/ou definitiva superação da atividade em tela. Nela completam-se integralmente os processos de ajustamento iniciados na segunda fase e consolidam-se as mudanças estruturais decorrentes da ação da atividade em questão. Eventuais elementos fortuitos, introduzidos de modo mais ou menos aleatório na segunda fase, são definitivamente aplainados e amoldados às condições imanentes à aludida atividade. A fim de se realçar as mudanças ocorridas deve-se efetuar o confronto entre o perfil demo-econômico vigente nessa última fase com o que prevalecia no início da primeira.
Por outro lado, do ponto de vista espacial, talvez seja recomendável que a análise se estenda ao entorno regional da área inicialmente contemplada, vale dizer, é aconselhável que se conheçam as condições de vida das pessoas ou grupos que se viram repelidos ou deslocados em decorrência da introdução da nova atividade. Penso aqui nas várias combinações que podem ser estabelecidas entre "piora" e "melhora" das condições de vida, renda ou riqueza.
Assim, além de levantarmos informações sobre a vivência ex ante e ex post facto para os grupos que se viram "beneficiados" pela introdução da nova cultura, devemos nos preocupar em estender tal conhecimento, e de modo circunstanciado, aos segmentos que, de uma forma ou de outra, podem ser considerados "prejudicados" pelo referido cultivo. O avultado número de arranjos possíveis sobre as aludidas condições deve operar, a meu juízo, como um chamamento contra conclusões apressadas e simplistas tomadas a partir de uns poucos indicadores estatísticos ou de um quadro de referências empíricas muito limitado.
NOTAS SOBRE PROCEDIMENTOS DE PESQUISA: ALGUNS ELEMENTOS A SEREM CONSIDERADOS NO ESTUDO DE NOVAS ÁREAS INCORPORADAS AO ECÚMENO


Iraci del Nero da Costa
Agnaldo Valentin




Quando se analisa o processo de incorporação de uma área (neste texto nos permitimos tomar, como sinônimos, os termos "local", "núcleo", "área" e "região" ) ao ecúmeno é recomendável atentar, antes do mais, para seus predicados geográficos e os fatores que atuaram no sentido de atrair seus ocupantes. Quanto a estes, é preciso procurar reconhecer suas expectativas e os eventuais planos que formularam quando decidiram deslocar-se para tal área e ocupá-la. É necessário, ademais, efetuar o levantamento de seus conhecimentos, de seu preparo para a promoção do aproveitamento da região ocupada e dos bens com que chegaram a ela. Igualmente relevante é a determinação das relações estabelecidas entre as pessoas cujo deslocamento está sendo contemplado: vieram elas em grupos? são pioneiros isolados (solteiros) ou seus familiares foram deixados em outras plagas para, eventualmente, serem chamados num segundo momento?

Com respeito ao local para o qual se dá o deslocamento, além dos elementos de ordem geográfica, já lembrados acima, e das eventuais aptidões da área em termos da disponibilidade de recursos, qualidade das terras, vias fluviais existentes, clima, regime térmico e de chuvas, condições pedológicas e perfil do terreno (montanhoso, plano, recortado etc.), deve-se emprestar especial atenção para as vias de comunicação já existentes assim como para a abertura de novos caminhos e rotas e seu desenvolvimento no espaço e no tempo, ou seja, tem-se de tomar em conta a disponibilidade de caminhos (terrestres, lacustres, marítimos e fluviais) que possam servir ao escoamento da produção local e ao recebimento de bens, serviços e informações de outras áreas.
Caso se trate de um ambiente com predominância do sistema escravista é forçoso saber como esta região se vincula com as redes de comercialização de cativos, quais são os mercados fornecedores de mão-de-obra servil e quais os liames comerciais estabelecidos entre essas regiões.

De outra parte, ao apreciarmos o processo de acumulação é imprescindível levar em conta os distintos momentos estudados, considerando, também, que cada fase (reconhecimento, ocupação, alargamento da ocupação, fixação definitiva, expansão produtiva, estabelecimento de comércio sedentário e desdobramento de núcleos rurais e urbanos etc.) apresenta determinados limites para o processo de acumulação individual e do corpo social visto como um todo. Vale dizer, deve-se considerar que, ao lado do dinamismo e da capacitação de caráter pessoal (ao lado da acumulação em termos individuais) existem potencialidades objetivas que dão o ritmo ao processo de "acumulação do conjunto social local", potencialidades estas as quais, a cada passo, atuando como um fator sobredeterminante, estabelecem o balizamento dos processos individuais de enriquecimento. Ademais, o nível de vinculação entre a área em foco e as redes de comércio regionais, "nacionais" e internacionais condiciona tanto o processo local de acumulação como, por conseqüência, os caminhos pessoais de enriquecimento.
Revela-se como tópico da mais alta importância, pois, a definição pormenorizada do padrão de acumulação seguido no correr do tempo pelo núcleo tomado como um todo e em sua interação com o meio "nacional" e o internacional. Paralelamente, nos quadros de tal padrão, é necessário verificar como se processa, a cada lapso, o desempenho dos distintos agentes econômicos que se desenvolveram na área. Aqui, além dos indivíduos, terão de ser considerados os diferentes segmentos ocupacionais existentes localmente.

No tocante às pessoas e aos grupos cuja atração deu-se num segundo momento do processo de ocupação (depois de efetuado o reconhecimento, o desbravamento da área e de ter-se iniciado a sedimentação do novo núcleo), impõe-se a averiguação detalhada de seus atributos de caráter objetivo e subjetivo. Quais as características desse(s) novo(s) grupo(s)? Seu nível de conhecimento e informação? Sua riqueza? Qual a composição do conjunto de seus bens (inclusive e sobretudo de escravos, se for o caso)? Quais as formas de transmissão e manutenção da riqueza através das gerações? Enfim, deve-se, sempre, qualificar as distintas "ondas" de novos ocupantes e, para cada uma dessas "levas" (desses momentos), as particularidades dos diferentes grupos e pessoas que as compõem, ponderando o duplo condicionamento existente entre os novos grupos e aqueles já instalados anteriormente.

Não se deve esquecer, ainda, que tais regiões certamente conheceram um fluxo populacional, vale dizer, há que se reconhecer os fatores promotores tanto da imigração como da emigração. Ao investigador cabe a ponderação de ambos os movimentos, buscando associá-los ao já citado processo de “acumulação social”. Assim, por exemplo, constatar a intensificação ou arrefecimento da associação entre negócios e ligações familiares pode fornecer um indicador relativamente contínuo do dinamismo local, assim como desvendar vínculos que dificultem a aludida mobilidade de setores da sociedade estudada, especialmente em momentos econômicos adversos.

Cumpre notar, por fim, a relevância assumida pelos elementos arrolados acima quando se pretende estabelecer comparações entre o comportamento no correr do tempo das distintas condições sobre as quais se alicerçaram nossas localidades. Sem o conhecimento mais denso dos caminhos por elas trilhados e dos substratos de ordem objetiva e subjetiva que informaram e enformaram o desenvolvimento de cada área, o mero confronto de uns poucos indicadores estatísticos revela-se ilusório, pouco profícuo e, portanto, absolutamente inútil. Assim, ao dirigirmos nossos esforços para a construção de uma história regional solidamente embasada no conjunto das ciências sociais colocadas à disposição do historiador estaremos, correlatamente, erigindo as bases indispensáveis aos confrontos dos quais resultará a identificação dos vários padrões de evolução que certamente estiveram presentes na formação das "populações" e das "economias" brasileiras.



NOTA SOBRE O USO DAS FARINHAS DE MANDIOCA E DE MILHO NO BRASIL ANTIGO


Renato Leite Marcondes
Iraci del Nero da Costa



A farinha de mandioca podia ser substituída pela de milho, chegando, mesmo, a haver uma diferenciação regional de preferências. Comentando a obra de Mawe, escreveu, em 1944, Clado Ribeiro Lessa: "A farinha de milho era usada para misturar com o feijão em Cantagalo e lugares de serra-acima, enquanto a farinha de mandioca tinha a preferência dos moradores do litoral e zonas baixas da província fluminense. ‑‑ Cantagalense é de serra-acima, não gosta de farinha de mandioca; isto é para gente de serra-abaixo, gente de Araruama ‑‑ dizia em família o pai do autor destas notas, natural de Cantagalo. O anotador, que nasceu na cidade do Rio de Janeiro e, pelo lado materno, descende de fluminense de serra-abaixo, precisamente, prefere a farinha de mandioca." (MAWE, 1978, p. 98).

Por volta de 1832, falando sobre São Paulo, asseverava outro viajante: "A principal cultura é o milho, vendo‑se, em compensação, poucas plantações de mandioca. Os habitantes dessa província consideram a farinha de mandioca como malsã, ao passo que, nas províncias do Norte, é a farinha de milho que assim é considerada." (D’ORBIGNY, 1976, p. 178).

Sérgio Buarque de Holanda, por seu turno, em texto dedicado à história de São Paulo e intitulado "Uma civilização do milho" depois de distinguir entre o planalto e a zona litorânea -- "Na região de serra-acima, que em São Paulo corresponde tradicionalmente à área da farinha de milho, -- ao passo que a da mandioca ocupa sobretudo a vertente marítima..." (HOLANDA, 1957, p. 215) --, profere palavras definitivas sobre as aludidas preferências regionais: "Esse extenso inventário dos produtos de milho, que se consumiam em São Paulo e nas áreas de expansão paulista, justifica-se pela importância verdadeiramente dominante que pôde assumir ali a gramínea indígena, durante a fase colonial, comparada a outros gêneros de alimentação. Comparada muito especialmente à mandioca.

"Essa importância é explicável só em parte pelas maiores possibilidades que oferecia ao seu cultivo a área de serra-acima primeiramente ocupada pelo colonizador e que, sobretudo durante o Seiscentos, se converteria no principal núcleo da expansão paulista. Já se fez referência, aqui mesmo, ao fato de a maior parte da farinha-de-guerra, ou mandioca, usada na cidade de São Paulo, até 1782, pelo menos, ser procedente da beira-mar, devido à escassez da sua produção no planalto.

"A outra explicação, todavia, e penso que a decisiva, da preferência dada ao milho sobre a mandioca, há de relacionar-se com a própria mobilidade que, por longo tempo, distinguiu a gente do planalto. Nas primitivas expedições ao sertão bruto seria de todo impraticável o transporte das ramas de mandioca necessárias ao plantio nos arraiais situados onde já não existissem tribos de lavradores. Primeiro porque, além de serem de condução difícil, pois ocupariam demasiado espaço nas bagagens, é notório que essas ramas perdem muito rapidamente o poder germinativo. E depois, porque, feito com êxito o plantio, seria preciso esperar, no mínimo, um ano, geralmente muito mais, para a obtenção de colheitas satisfatórias.

"O milho, por outro lado, além de poder ser transportado a distâncias consideráveis, em grãos, que tomavam pouco espaço para o transporte, oferecia a vantagem de já começar a produzir cinco e seis meses ou menos depois da sementeira." (HOLANDA, 1957, p. 221-222).

De outra parte, a mandioca aparecia como sucedâneo do pão; assim, Mawe, escrevia em 1809: "Jantamos com apetite, mais ou menos às sete horas, galinha assada e mandioca, que substituía o pão. Este último é tão raro nesta região, que a aldeia de Barbacena, muito povoada, não pôde, embora situada no distrito mais abundante em grãos, nos fornecer senão uma rosca." (MAWE, 1978, p. 117). A farinha de milho, por sua vez, também substituía o pão; o mesmo Mawe, já a falar de uma área de Minas Gerais, comentava: "A farinha de milho, alimento principal, me pareceu de tão bom paladar e tão nutritiva que tive a curiosidade de conhecer seu preparo. (...) aqui a empregam como sucedâneo do pão, tão comumente como no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outros lugares, a farinha de mandioca." (MAWE, 1978, p. 139). Referindo‑se à última, escrevia Burmeister em 1851: "Está então pronta a farinha [de mandioca], que é guardada em lugar seco. Este alimento não deve faltar em nenhuma mesa brasileira. No interior, substitui o pão e é servida em bonitas tigelas laqueadas, para ser comida junto com os demais alimentos." (BURMEISTER, 1980, p. 94).

Aliás, como sabido, de ambas estas farinhas fazia‑se o pão. Com respeito ao pão de milho lemos em Mawe: "o Tijuco se abastece em fazendas afastadas várias léguas. O pão era aí extremamente caro. O milho, com que ele é feito..." (MAWE, 1978, p. 158). Já sobre o "pão" preparado com farinha de mandioca e de trigo, diz‑nos Burmeister: “O pão, que se compra na maioria das vendas, é dormido e duro... Há duas espécies, com os nomes pomposos de 'rosca' e 'biscoitos'. O primeiro é feito de farinha de mandioca, à qual se adiciona, de acordo com a exigência, ovos e leite; tem a forma de uma coroa de quatro polegadas de diâmetro. Estas 'roscas' são comidas secas (...) ou com uma bebida, como vinho, aguardente ou café, caso em que são mergulhadas no líquido para amolecer. O 'biscoito' brasileiro é um pão comum de trigo, feito no Rio de Janeiro e remetido para o interior do país. Em geral, não tem paladar, sendo tão duro que não se pode mastigá‑lo. Apresenta, quase sempre, a forma de lua ou de corda, consistindo numa massa comprida enrolada ou em nó." (BURMEISTER, 1980, p. 147).

Saint‑Hilaire ‑‑ francês que aqui esteve de 1816 a 1822 ‑‑ teceu muitas considerações sobre a farinha de milho, delas selecionamos, tão‑só, algumas passagens: "Todos os agricultores plantam milho, não só porque sua farinha substitui o pão..." (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 106). "Sua farinha [de milho] simplesmente moída e separada do farelo, com o auxílio de uma peneira de bambu, toma o nome de fubá. É fazendo cozer o fubá na água, sem acrescentar sal, que se faz essa espécie de polenta grosseira que se chama (...) angu, e constitui o principal alimento dos escravos. [...] Fazem‑se também com a farinha de milho bolos, certo gênero de biscoitos, e mesmo, pequenos pães de gosto agradável, mas de miolo muito compacto. As vezes mistura‑se essa mesma farinha com a de arroz, de centeio ou de trigo, e daí resulta um pão muito menos compacto." (SAINT‑HILAIRE, 1975, p. 107).
Remetemos o leitor interessado nas questões concernentes às espécies vegetais nativas do Brasil ou que aqui vieram a ser aclimatadas aos autores que as trataram com anterioridade: Hans Staden, André Thévet, Pero de Magalhães Gandavo, Padre Fernão Cardim, Ambrósio Fernandes Brandão, Gabriel Soares de Sousa e Jean de Léry.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil através das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais: visando especialmente a história natural dos distritos auri‑diamantíferos. Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/EDUSP, 1980, (Reconquista do Brasil: nova série, vol. 23).

D’ORBIGNY, Alcide. Viagem pitoresca através do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/EDUSP, 1976, (Reconquista do Brasil, vol. 29).

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1957, 334 p., (Coleção Documentos Brasileiros, 89).

MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/EDUSP, 1978, (Reconquista do Brasil, vol. 33).

SAINT‑HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/EDUSP, 1975, (Reconquista do Brasil, vol. 4).

ROTEIRO PARA RESUMIR TEXTOS DAS ÁREAS DE HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E ECONOMIA


Ana Maria Figueiredo Barbosa
Iraci del Nero da Costa



A elaboração de um resumo exige, necessariamente, além da referência completa e precisa da obra, a abordagem, segundo a seqüência em que vão dispostos, de cada um dos grandes itens abaixo relacionados. Assim, com respeito ao conteúdo de um trabalho, mesmo se o autor não os houver explicitado, têm de ficar claramente identificados os seguintes elementos:


1. Idéias centrais do trabalho.

1.1. O objeto do estudo. Ou seja, deve-se indicar o tema central do trabalho, bem como os principais "subtemas" (tópicos) abordados.

1.2. A quem se refere o trabalho. Exige-se aqui a especificação do segmento social estudado. Qual o grupamento (econômico, social, político, religioso etc.) contemplado? Qual a cobertura do estudo? Ou seja, é considerada toda a população, ou o trabalho se refere a um segmento específico (gênero, faixas etárias, status social etc. etc.) dela? É estabelecido o cruzamento e/ou confronto de grupos distintos? Enfim, quem são as pessoas estudadas, quais são os grupos estudados?

1.3. Quando se deram os fatos estudados. Vale dizer, a que lapso temporal referem-se tais fatos?

1.4. Onde se deram os fatos. Ou seja, em que espaço e condições geográficas desenrolaram-se os acontecimentos estudados?

1.5. Em que contexto se deram os fatos. Considera-se aqui a necessidade de se verificar se o autor explicitou o contexto histórico no qual se encontram emoldurados os fatos estudados, e em que medida estabeleceu ele os liames entre estes últimos e o aludido pano de fundo histórico. Caso o autor não haja efetuado tal enquadramento e não tenha estabelecido essa inter-relação, devem-se esboçar, ainda que tentativamente, os elementos essenciais daquele enquadramento e dessas relações.

2. Fontes de dados e tratamento a eles emprestado.

2.1. Como o autor estudou os fatos. Devem ser esclarecidos, aqui, três pontos básicos. De uma parte, as fontes (elementos de ordem empírica) que serviram ao estabelecimento das análises apresentadas no trabalho. De outra, o instrumental analítico (elementos de ordem metodológica) utilizado pelo autor para efetuar as aludidas análises. Por fim, faz-se necessário indicar os elementos de ordem teórica nos quais se embasa a visão do autor. Note-se que o instrumental metodológico adotado está condicionado, tanto pelas características das fontes usadas, como pela natureza da perspectiva teórica esposada pelo autor.

3. Principais conclusões.

3.1. Quais os resultados alcançados. Devem ser sumariados os principais resultados estabelecidos no estudo com indicação de seu alcance e eventuais limitações.

4. Significância do estudo para o avanço da área.

4.1. Relevância do estudo efetuado. Pensa-se aqui em duas questões que se interpenetram. De um lado, deve-se atentar para as razões que, segundo o autor, justificam a escolha do tema de seu trabalho; de outro, tem-se de indicar, pormenorizadamente se possível, a relevância do estudo para o desenvolvimento da área de conhecimento na qual ele se insere.
QUESTÕES A SEREM LEVADAS EM CONTA NA ELABORAÇÃO DE UMA RESENHA


Ana Maria Figueiredo Barbosa
Iraci del Nero da Costa



As questões abaixo deverão ser tomadas em conta no correr da resenha, vale dizer, no correr da exposição e qualificação da matéria tratada na obra. Não estamos em face, pois, de itens a serem levados em conta de modo estritamente seqüencial, direto e frio, mas de questões a serem abordadas em termos precisos, porém de maneira a garantir uma leitura agradável e esclarecedora. Lembre-se, ademais, que, além dos elementos informativos aqui arrolados, também se deve efetuar a apresentação sucinta do conteúdo da obra; com respeito a tal resumo recomenda-se a leitura do texto intitulado: Roteiro para resumir textos das áreas de história, sociologia e economia.

1. Conteúdo da obra resenhada
a. A exposição é clara, lógica, objetiva e consistente?
b. Há introdução que exponha claramente as idéias centrais e os objetivos da obra (livro)?
c. A conceituação e terminologia são precisas e rigorosas?
d.Qualidade dos exemplos e/ou aplicações: grau de generalidade e/ou especificidade. As aplicações práticas e/ou exercícios: são triviais? são desafiadores?
e. O estilo é formal, envolvente, adequado ao leitor visado?
f. Qualidade da tradução.
g. Qual o grau de profundidade relativa da obra (livro)?
h. Enfim, qual o grau de inteligibilidade da matéria tratada e da obra em geral?
i. Em que medida a obra contribui para o desenvolvimento da área de conhecimento na qual ela se insere.

2. Organização da obra resenhada
a. A matéria está bem distribuída e bem hierarquizada?
b. Discriminação das partes e/ou capítulos.
c. Apêndices, índices (de autores, de assuntos etc.)
d.Bibliografia: abrangência, atualidade, relevância, cobertura de problemas gerais e específicos, em português, em outros idiomas. Normas de citação são aceitáveis?
e. Tratamento visual: tabelas, ilustrações.
f. Tratamento gráfico em geral.

3. Confronto
a. Como a obra se compara a trabalhos similares? Em que tais trabalhos são superiores ou inferiores à obra em foco? Há leituras alternativas e/ou complementares?

4. Conclusão
a. Quais os pontos fortes e fracos da obra? Qual o balanço dos méritos e das falhas da obra?
b. A quem se recomenda a leitura da obra (livro)? Por quê?